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Blogando o Brasil dos Games. Episódio #20: Alexo, André e Osni.

Conversamos com as inteligentes mentes por trás do Benzaiten.

 

Por Márcio Filho

 

Nesta nossa já longa jornada pela "Brasil dos Games", a série "Blogando o Brasil dos Games" já teve a oportunidade de mostrar as diversas facetas e personalidades dos principais jogadores e escritores do diversos gameblogs do país.

 

Gente que sofreu preconceito por jogar, que conseguiu empregos por jogar, que pode apreciar o game e fazer amigos e mesmo aqueles que enxergam os games como uma fonte de estudo e cultura. Música, enredo e trabalhos visuais primorosos já nos permitiram ouvir (ou ler) defesas do game enquanto expressão cultural.

 

E nosso bate-papo da semana é com uma das equipes mais multidisciplinares sobre o assunto na blogesfera brasileira sobre games. Conversarmos com Alexo, Osni e André, importantes membros da equipe que escreve no Benzaiten.

 

Em uma conversa inteligente e cheia de posições reveladoras, falamos sobre a história do Benzaiten, de preconceito e dos games como expressão cultural.

 

Confira!

 

Da direita para esquerda: Alexo, André e Osni.

 

EArenaGames: Primeiramente, gostaria de agradecer a vocês pela entrevista e já abrir pedindo que vocês dessem uma explicação mais aprofundada do que é o Benzaiten ao nosso público e como surgiu a ideia?

Alexo: Olá, Márcio, nós que agradecemos o convite em participar de mais uma rodada de entrevistas do EAG.

Bom, cabe primeiro explicar o nome e o tema do nosso grupo. Benzaiten, na verdade é feminino. Trata-se de uma deusa oriental, a deusa japonesa das artes, da música, da dança, enfim.

O gosto por jogos eletrônicos, como creio temos todos nós aqui, surge cedo e o mesmo acontece comigo (na verdade, comecei com computadores, com a linha ZX 80). A ideia de formar o grupo surgiu da evolução dos games para uma categoria mais humanizada de produtos "eletrônicos", envolvendo mais profissionais no desenvolvimento, nos projetos, e principalmente artistas.

A proposta do grupo, então, basicamente, é mostrar e homenagear os artistas e projetistas dos games "contemporâneos" (contemporâneo em contraponto aos games "tecnológicos", advindos da ciência).

Pra quem tiver curiosidade em aprofundar esse raciocínio, é só acessar o blog, ou mais especificamente este link: http://www.benzaiten.com.br/artigo/benzaiten_proposta.htm

 

EArenaGames: Dentro desta visão de videogame game como arte, vocês acreditam que sejamos capazes de enxergar nele um meio de crescimento cultural? Como veem esta situação hoje no Brasil?

Alexo: Bom, da minha parte, eu sou mais reservado quanto a afirmar que videogame é arte, sem discutir pornemores. Eu acho que existe bastante reflexão a respeito disso, mas quanto à cultura geral contida em um produto game eu não tenho a mesma reserva, não. Considero sim que um game pode conter muitos valores culturais em seu conteúdo, expresso de diversas formas, seja objetivamente em linguagem verbal, seja utilizando a comunicação de outros meios, como arte gráfica, a música ou enredo.

Osni: Eu acho que a partir do momento que o videogame começou a assumir uma complexidade de roteiro e de arte do nível do cinema, os jogos podem sim ser considerados como um meio de crescimento cultural. Alguns jogos se aproximam muito da experiência de ler um livro ou assistir um filme, e esses dois últimos são considerados meios culturais sem sombra de dúvida.

Alexo: Exato, Juunin. Recentemente, conversando com o Christiano Weirich, que participa da lista também, conversávamos rapidamente sobre a arte envolvida nos videogames e ele me questionou se um filme é considerado arte, por que videogame da mesma forma não poderia? Então, permeando a questão cultural, eu acho que videogame na forma de arte, ou mesmo na forma de cultura, ainda é um produto imaturo, se comparado com a linguagem do cinema, mas no mínimo ele caminha para isso, e a passos largos.

É, e a relatividade da cultura inserida no videogame (assim como também a arte etc.) pode também ser proporcional ao interesse do usuário (ou jogador, enfim). Um "gamer" pode vislumbrar, apreciar um jogo eletrônico como "joguinho" ou como "arte". Depende também da sua cultura, da sua vontade e de como quer consumir aquele produto.

André: Penso essas questões culturais de modo geral. O Brasil é país muito dividido. Ou você compra a cultura, ou vive num centro cultural forte, ou engole o que alguém achar que é cultura, e por aí vai. Se você tem grana pra comprar cultura, você passa a encarar o jogo como crescimento cultural sim. Passa a fazer parte de sua cultura.

Mas se sair pelas ruas não precisa observar muito pra ver que essa não é a realidade da maioria das pessoas. Isso pra mim reflete a importância que o país dá à cultura. Falando do valor que damos à nossa cultura, e comparando também ao cinema: repare como grande parte das pessoas acha que o Brasil até hoje só faz Pornochanchada e o cinema é produzido aqui há tempos. O que sobra então para o videogame?

Em suma, vejo a situação atual também de forma dividida. Os que sabem o que se passa no mundo dos games o aproveita como agregador de formas artísticas diversas e vê um futuro promissor para a área, e os que não sabem o que se passa não vêem nada, não sabem de nada, ou parece nem estarem interessados. Por isso falo de um problema cultural geral, já que não é assim só com os videogames, a diferença é à proporção que é menor do que em cinema, ou em teatro, ou em música...

 

EArenaGames: Pensando no videogame como um agregador de variadas formas de cultura, vemos que diversos conteúdos de outras artes vem para os games, e saem dos games para ir à outras artes. Gostaria que cada um de vocês citasse um exemplo louvável do casamento entre games & outra Arte (como cinema) e um acontecimento e se esquecer.

Alexo: Ah, ótimo. Bem, essa questão vai exatamente de encontro com o que eu penso no momento. Considero um videogame um concentrador de expressões artísticas (que têm sua história mais sedimentada). Ele recebe estas linguagens, as trabalha e as recria em uma nova forma de expressão. Da mesma forma que fazer videogame é uma atividade extremamente multidisciplinar, o inverso também acontece: do universo dos videogames, vemos hoje uma expansão desta forma de expressão para outras esferas, seja ela artística, cultural, educacional, terapêutica, literária, quadrinhos, cinema etc. Os videogames também inspiram as artes convencionais que o formam. Eu citaria, sem pensar muito, nas artes visuais e na música, sendo que a linguagem sonora – no tocante a interatividade – tendo muito ainda pra ser explorada.

O conteúdo imagético dos videogames é alvo constante de vislumbre por parte dos jogadores e tem, em geral, um avanço tecnológico e de linguagem progressivo, constante; a música, no entanto, teve um avanço gigante com o advento da mídia CD, que trouxe a expressão orgânica pra dentro dos games: ao invés de sons sintéticos, instrumentos e artistas de verdade podiam "aparecer" explicitamente dentro das produções e acredito que isso possa ter sido um pontapé para que a trilha de videogame ganhasse expressividade e, assim, saísse do universo dos aficcionados para atingir um público "convencional".

Osni: Eu me lembro do lendário Danny Elfman, que fez os temas de abertura de “Fable I” e “Fable II”, além da trilha sonora de “Lego Batman”. No cinema, ele trabalhou em blockbusters como “Terminator Salvation” e “Spiderman 3”. Além dele, diversos dubladores dos personagens da série “GTA” são atores famosos da Hollywood.

E ultimamente tivemos o ótimo “Resident Evil 5”, cuja trilha sonora foi gravada pela Hollywood Studio Symphony.

Um jogo onde eu acho que é impossível não enxergar arte é no “Braid”. É como jogar uma pintura abstrata.

André: Pra mim, um dos maiores exemplos, que inclusive presenciei, foi o Video Games Live. É um espetáculo quase operístico. A ópera é basicamente teatro e música, mas com atores encenando e cantando. No VGL os elementos do jogo são trazidos ao espetáculo basicamente musical, mas o telão está ali, os atores virtuais estão ali. Não cantam, mas são acompanhados pela música.

Além disso, o espetáculo proporciona a interação entre o público e o jogo, juntamente com a música. Apesar de a interação não ser tão explorada como acho que deveria, acontece tudo isso no espetáculo. Não é uma ópera pela falta de elementos que caracterizem uma ópera, mas é novo, e não é um videogame.

Outro exemplo do contrário que me fez passar a observar essas interações foi com a trilha sonora do jogo Hook, para Snes. A trilha é fantástica, mas não poderia ser diferente, já que é uma adaptação da própria trilha do filme, escrita por John Williams.

Não sei se o compositor adaptou sua trilha aos jogos, ou se foi feito por outra pessoa, mas soa incrível no jogo assim como soa incrível no filme, ainda que seja num formato muito diferente do filme.

 

EArenaGames: O Video Games Live é uma boa citação, assim como os filmes e trilhas sonoras. Vocês acham que ainda existe muito preconceito contra os games? Estes instrumentos ajudam a diminuir este preconceito, se é que ele existe?

Alexo: Sim, sinto que existe bastante. E parte da ideia lúdica que se faz dos videogames tem fundamento e também não deixa de ser algo negativo. Vamos reforçar que, seja como for, um game não deixa de ser, essencialmente, um produto de entretenimento, deve divertir, deve transportar seu usuário para uma situação inusitada, envolvê-lo em uma história. Da mesma forma que vemos muitos filmes de animação ganhando força enorme em tempo de férias escolares e quase sempre, ultimamente, sendo projetados apenas em versões dubladas, o videogame também acaba, muitas vezes sendo considerado um produto feito para menores idades. Quem está envolvido com games atualmente sabe a complexidade que uma história pode se desenvolver, forçando que seu usuário disponha de mais condições para jogá-lo de uma forma ampla. Se parte da expressão artística realizada dentro de um jogo eletrônico sai da sua esfera natural, e hoje em dia temos inclusive exposições de videogame arte, instalações eletrônicas interativas, enfim, isso colabora em trazer um entendimento ao público leigo de que o lúdico, a magia e até uma possível infantilidade aparente em alguns games não se traduz em um produto raso, insípido, inexpressivo. Digo isso, se entrarmos, então, na análise dos games de temáticas maduras, a conversa fica até mais óbvio.

Inclusive uma das intenções da Benzaiten é mostrar um pouco do lado mais maduro que os videogames concentram, mostrar o seu lado humano, o afeto que ele causa em seus apreciadores; falar de cultura, de arte e de artistas maduros atuando tão imersamente com jogos.

Osni: Eu não acho que exista um preconceito propriamente dito, mas sim um desconhecimento. Algumas pessoas não vêem o valor cultural que um jogo pode conter. Quando um jogo alcança outras mídias, como música ou pintura, é como se fosse simplificado para que essas mesmas pessoas pudessem aproveitar um jogo em doses "homeopáticas".

Dessa forma elas aprendem a admirar o conteúdo de um jogo não somente como um "videogame", mas como um canal de mídia.

 

EArenaGames: Falamos muito do Brasil e do desconhecimento deste mercado por parte dos brasileiros. Porém, algumas iniciativas como o Zeebo e games como "Capoeira Legends" demonstram que estamos em uma crescente. Queria que vocês comentassem um pouco sobre isto.

Alexo: Bom, eu não conheço muito bem como anda a produção nacional. Mas sinto uma evolução, pessoas interessadas em estudar na área, empresas surgindo e eu acho que o Brasil tem um potencial enorme para deslanchar neste setor, mas talvez até a questão anterior, do preconceito (ou ignorância, como queira chamar) sobre os videogames também sirva que investidores receiem investir no potencial que ainda está pra ganhar uma voz própria em games nacionais. Como acontece no cinema, um jogo eletrônico bem produzido, além de uma boa ideia, trata-se muito fortemente de uma boa produção, que é proporcional ao seu orçamento. E, se game é entretenimento, ele também é um produto que deve ser viável comercialmente. Então é questão de cultura, de investimento, de estudo, de tempo, pra que o Brasil aconteça como país produtor na área.

Osni: O que eu vejo bastante é a exportação dos talentos brasileiros por falta de incentivo. Alguns casos raros, como a Hoplon e o ótimo “Taikodom”, mantém suas atividades em território nacional, mas a maioria das softhouses brasileiras faz jogos para Alemanha e Estados Unidos. Por exemplo, o “projeto Natal” foi chefiado por um brasileiro, o Alex Kipman, lá nos EUA.

André: Tenho basicamente a opinião do Alexo e do Junnin. Então, não dá pra estar satisfeito quando se pesquisa games brasileiros e encontra apenas Zeebo, “Capoeira Legends”, “Taikodom”, “Cave Days” entre alguns outros.

Reflexo da cultura, mais uma vez? Acho que sim. Quantos não são os músicos que "fogem" daqui pra brilhar em outro lugar? Depois posso fazer uma lista quilométrica se quiserem. E eu achava que isso era coisa dos anos 80. E vai se repetindo nos games. Isso é meio frustrante pra pensar quanto brasileiro.

 

EArenaGames: Nossa entrevista está chegando ao fim. Queria pedir que vocês deixassem uma mensagem para nossos leitores.

Alexo: Bom, passado frio na barriga, a conversa foi super bacana. Com certeza ficaríamos várias outras horas aqui aprofundando essas e tantas outras ideias, muitas delas já bastante debatidas em grupo. Quero parabenizar a iniciativa do EArena Games em posicionar seus holofotes sobre o universo nacional dos jogos eletrônicos, da produção, comercialização, discussão, enfim.

Quero apenas reforçar que a Benzaiten é um grupo pequeno de amigos interessados em games e em artes e até por isso fiz questão de convidar mais colegas para participar aqui da entrevista, mas que nosso time é formado por vários outros integrantes também (seus nomes aparecem no blog). E deixar a mensagem para que os videogames sejam tratados com seriedade, com estudo, com investimento, pra que os próprios brasileiros sejam valorizados, sejam artistas, projetistas, desenvolvedores, como também nós todos, consumidores, com impostos menores, custos de games mais acessíveis, como deveria ser acessível todo tipo de arte, cultura e entretenimento.

Osni: All your base is belong to us!

André: Bom, se o grupo e o blog existem, é porque surgiu a necessidade de discutir, evoluir e publicar algo relacionado a entretenimento eletrônico e arte. O conteúdo está lá para todos que queiram aproveitá-lo. Mas acho que isso apenas não basta, gostaria de fazer um apelo aos leitores.

Que passem a idéia adiante. Hoje posso dizer que o Benzaiten foi pra mim uma das portas para esse mundo. Mas foi uma porta onde bati e me convidaram pra entrar. Não foi por acaso.

E por isso acredito que o conteúdo não chegará às pessoas por acaso e não será recebido por acaso. No mais, valeu Márcio e EArena Games, curti pra caramba a entrevista.

 

Contatos: Benzaiten

 

Saiba mais sobre a série "Blogando o Brasil dos Games".



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Comentários
CamilaConsoleSonoro

22 de Setembro de 2009 às 09:06

Show de bola!
Márcio_Filho

18 de Setembro de 2009 às 16:25

Valeu Alexo!
Foi um prazer entrevistar vocês e tenho certeza que está sendo um prazer para todos os leitores desfrutar desta entrevista.
E vamos que vamos!
Alexo Mello

18 de Setembro de 2009 às 13:48

Muito legal. A gente demorou pra fazer a entrevista, mas sabe que relendo tudo, deu vontade de continuar aprofundando esses e outros temas. Parabéns novamente pelo site em procurar valorizar o material humano nacional. Sejam muito "verde-amarelo" sempre. Abraços.
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